segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Meu Mundo Em Pausa

Olho nos olhos perdidos num espelho cruel
E vejo uma tristeza esfinge
Mas, nem sei como perguntar a mim mesma
O que está acontecendo
O porquê do riso sem vontade
Dos aplausos para o que não vejo graça
Do viver sem chegar, sem cessar...

Estou aqui com meu companheiro
Emitindo acordes melancólicos
Nessa tarde cinza e fria
Tentando chamar o Sol
Na esperança de ouvir seu estilhaçar na janela

Que venha a luz distante!
E que seus raios atinjam a veia de minha vida
Que façam meu corpo jorrar o líquido gélido
Que penetrará na terra dos infelizes
Para nunca mais vir à tona

Não há melhor antídoto que a música
E nem pior veneno que a burocracia
Infiltrada nos sentimentos...

Para ver o mundo dar voltas
É preciso girá-lo no dedo.



Denise Soares - 27/06/2007

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Preguiça? Melhor não tê-la! Mas, se não a temos, como sabê-la?

“O homem gasta muito tempo e muita força para buscar fama, sucesso e satisfazer desejos materiais. Assistindo a tudo isso de longe, o homem parece um grande tolo”, já dizia o sábio preguiçoso.

E aqueles homens que vivem frenéticamente, feito formigas atômicas, ainda se aproveitam da preguiça alheia para mostrar que são melhores. A cidade é um verdadeiro formigueiro que cobra do homem o que é proporcional à evolução e às mudanças ocorridas no mundo ao longo do tempo.


Porém, ninguém ignora a preguiça, mesmo que a hipocrisia tente mostrar o contrário. Tanto aquele que trabalha em excesso como aquele que ignora o trabalho reage da mesma maneira, ou seja, todos querem fugir da realidade próxima. E ainda dizem que o trabalho dignifica o homem... Sim, aquele homem-formiga atômica que vive sonhando com as férias, com a aposentadoria, que tem raiva dos vagabundos errantes... e preguiçosos! Essa dignidade brilha nos preguiçosos ansiosos, que não convivem bem com a preguiça, pois sabem que ela não é coisa boa. E isso cansa... A guerra entre o “fazer nada” e o “trabalhar demais” dentro da cabeça também é exaustiva, por isso o preguiçoso ansioso já descansa bem antes de ficar cansado! Afinal, sabe que tem uma semana inteira pela frente e só de pensar que coisas para fazer aparecem de monte, a ansiedade já o consome.


Ah, falando nisso, e os domingos? São torturantes! Véspera inútil da segunda feira... Boa desculpa para ficar no sofá... até a hora da vinheta do Famplástico vir ninar a depressão. E aí vem a guerra: ficar aqui? Sair? Quem vê TV de domingo? Só bobo... Ah, mas é preciso descansar... Amanhã é segunda, tem que ir pro trabalho! É preciso lembrar disso... zzzzzzzzzzzz...


E na segunda feira, o óbvio: o homem vai trabalhar cansado, pegando no tranco, xingando a própria mãe por tê-lo colocado nesse mundo. Na terça feira, lembra de que é obrigado a entrar no ritmo frenético diurno. Na quarta, já anestesiou. Na quinta, já se acha um idiota por querer outra vida, afinal a sexta feira já está aí e a semana vai acabar. Oba, fim de semana! Cerveja na sexta com os vagabundos errantes que dão raiva, ressaca no sábado... depressão no domingo... zzzzzzzzzzzz... trampo na segunda... correria na terça...
        
A chatice de acordar todos os dias se fortalece quando se deixa as fugas de lado para correr atrás de nada, para tentar chegar a lugar nenhum. Dormir, levantar, ir para o trabalho pelo mesmo trajeto, tomar o metrô, passar pelas mesmas ruas, correr entre os carros... Desobedecer ao corpo, sorrir para o patrão, conversar com o computador, tomar café para não dormir, ler notícias inúteis... Até a bendita hora de ouvir o descanso chamar! Largar o café, desligar o computador, cuspir no patrão, fortalecer o corpo, pisar nos carros, voar pelas ruas, viajar no metrô, se jogar no sofá, ligar a TV e dormir. Alguma diferença?


E se enganam aqueles homens que pensam ter despertado a alma. Que pensam ter o domínio das coisas, adiando-as como se soubessem exatamente o que é necessário ou desnecessário para viver. E quem ou o que dita isso? A falta de sol na janela, nos sorrisos, a falta de luz que legitima o pecado... A fraqueza do ser que se deixa guiar pela mente com a ideia de ser livre para escolher...

E hoje ainda é quarta feira... É, pode ser uma boa não ir ao trabalho hoje!




Beijo! Positivas, sempre!

Denise

        
        
        

domingo, 5 de dezembro de 2010

Desabafo!

Sim, o cansaço bateu! A desculpa pode ser a de sempre: É fim de ano! E eu, que não nasci com a bunda virada pra Lua, trabalho e estudo feito louca! Corro atrás de cuidar da minha música, da minha família, dos meus amigos... Confesso que mais estudo do que trabalho... Muito mais estudo... Mesmo tendo de cumprir horrendas oito horas por dia para defender “meu salário de trabalhador otário” que ilustra bem a “exploração do meu patrão”. É... trabalhar e estudar, ao mesmo tempo, é desumano. Mas, o meu cansaço não vem disso não...

Fico puta de ver que violência maior é não ter direito ao trabalho nem ao estudo.  Violência maior é passar oito horas do meu dia dentro de uma instituição pública que defende os seus bônus e premiações em cima de um bando de jovens sem perspectiva nenhuma de vida, onde a falta de cultura, de formação política, de carinho e de amor estão em primeiro lugar representadas pelas drogas, agressões físicas e verbais gratuitas, meninas grávidas aos 14, 15, 16... Passo oito horas do meu dia vendo tudo isso... E mais aqueles que dedicaram anos da suas vidas de estudante para representar esta instituição, hoje, sendo um bando de palhaços depressivos e alcoolatras que não ganham nem metade do que investiram para serem referências... Sem ter nem mesmo uma base material, sequer, ou algum incentivo que valha para ensinar algo a esses jovens que, ultrapassadamente, ainda são chamados de “futuro da nação”.

E a violência não é contra mim não... Eu sou a violência! Assisto a tudo isso com uma sensação de impotência absurda. E uma revolta que me consome... O meu silêncio, a minha antipatia e arrogância são as minhas reações. Para as vítimas, vai a minha camaradagem... Para não dizer compaixão. E o meu agradecimento a cada criança que me premia com um abraço diário... E sem maldade.

O meu cansaço é o desânimo de ver que o ser humano assume, cada vez mais, a sua condição de “indivíduo-individual-individualista”. O discurso sobre o coletivo é lindo e a prática é zero. Talvez na mesa de bar... Mas, marcar um barzinho está cada vez mais difícil... Até para o “arroz de festa”...

O meu cansaço está em correr, gritar, espernear num quarto escuro e vazio. Minha geração luta contra o mercado. O mercado é meu inimigo e a luta é desigual. Até da minha arte eu quero viver, mas, terei de ser amiga do mercado. E me irrita ver tantos otários querendo ser ídolos! Mas, eles não têm culpa de sonhar assim... E eu tenho culpa de sonhar só o que posso cristalizar, ou seja...

E vem esse final de ano, onde começo a pensar naqueles jovens e crianças que entrarão de férias da escola e, por isso, ter algo para se alimentar será mais difícil porque merenda escolar não se entrega em casa. Começo a pensar naquele bando de gente se engalfinhando nas lojas para adquirir bens materiais sem valor, em nome de coisa nenhuma. Começo a pensar em milhares de pais e mães que vão gastar o seu pingado de salário para não desiludir os filhos sobre a existência do Papai Noel... Talvez, possa sobrar algum para o frango assado e o arroz... Ou para aquela dose etílica da coragem que ameniza as dores... Esse é o espírito do Natal! Ele entra para phoder, mesmo, nas pessoas, não é?

Não vou pedir desculpas pela minha revolta e pelo meu desabafo. Tenho esse direito. Não vou pedir nada... A tendência é o isolamento. “Para quem me quer assim, tá fácil! Para quem não quer, também!”


Um beijo!

Denise.



domingo, 14 de novembro de 2010

In Media Res

Não quero méritos nem imortalidade
Por inventar uma palavra, uma pancada, um dizer...
Quero apenas dizer.
Igual a qualquer ser que põe sua vida a brincar
Nesse carrossel desgovernado,
Tão inconsequente a ponto de jogar o espírito
Pra fora de um corpo que não anula a visão congelada.

Deixando o mundo fotografar minha alma
Para revelar-me traída gritando a paixão,
Expondo à sarjeta a dor,
Vivendo no centro do olho do furacão,
Sentindo o prazer da vida sacudida in media res.

Sendo o vácuo entre as taças no tilintar e, depois do brinde,
Transformar-me naquela velocidade etílica absurda
A rasgar o corpo sedento.
Assistindo a uma rinha de boteco
E aplaudindo o vencedor...

Velando o sono vigiado pelas estrelas
E coberto por um jornal...
A trilha sonora?
É o tesão comendo o que resta
E o uivo dos cães
Juntos de nós inebriados de luar e lágrimas.
E no espelho do céu olhinhos assustados in media res.

Caminhando numa trilha de flores caídas,
Aos prantos de dor da árvore sentida em perdê-las,
Admirando o vão entre galhos e folhas
Como se fosse uma pintura rara

Presenciar uma cena de nuvens fecundando-se
E chorar ao ver o desenho da paz,
Mesmo que esta seja derradeira por um segundo...
Chutando a poça de chuva
Só pra ver os pingos em forma de poema no ar.

Segurando a barra, virando as páginas
Desse almanaque de fatos reais,
Sem pausa a vida está
In media res.


Denise Soares - 26/08/2005